Em 06 de janeiro, o mundo assistiu à invasão do Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, quando apoiadores do presidente Donald Trump, incitados por ele, paralisaram o processo de certificação da vitória do presidente eleito Joe Biden e provocaram, até este momento, cinco vítimas fatais. A ação foi chocante, mas não surpreendente, já que era cada vez mais previsível que haveria um desfecho trágico aos constantes ataques de Trump a seus adversários políticos, ao processo eleitoral e, portanto, às próprias instituições democráticas de seu país.
Diante da violência, até lideranças republicanas que ainda apoiavam Trump em sua tentativa de apontar que houve fraude nas eleições se viram obrigadas a mudar o discurso, aceitando a vitória de Biden, se unindo aos democratas nos pedidos para que a população faça o mesmo e, em alguns casos, debatendo inclusive a necessidade de que o presidente seja imediatamente removido do cargo. É simbólico que as hostes agressivas que promoveram a invasão vinham sendo inflamadas há anos também por alguns dos parlamentares que precisaram de proteção naquele momento. A besta do fascismo, uma vez solta, não escolhe vítimas.
Que o preocupante acontecimento dos Estados Unidos sirva de exemplo para lideranças políticas e para a sociedade também no Brasil. O fato de que, diante do ocorrido, o presidente Bolsonaro tenha escolhido colocar em dúvida o sistema eleitoral brasileiro e apontar que o país deve esperar ataques semelhantes em 2022 é gravíssimo e nos mostra que é preciso que todos os que têm compromisso com a democracia estejam dispostos a agir imediatamente, para evitar que mais uma tragédia anunciada venha a ocorrer. Que essa fala tenha sido feita no momento em que o Brasil atingiu a terrível marca de 200 mil pessoas mortas pela covid-19 só ajuda a demonstrar como já é trágica a atual situação do país, que ainda vê o presidente minimizar a importância da pandemia e de uma campanha nacional de vacinação.
Todos aqueles que hoje dão sustentação às ameaças e ataques de Bolsonaro visando qualquer tipo de ganho político precisam se perguntar se querem ser corresponsáveis pelo que está por vir. Não há mais espaço para dúvidas ou vacilação. Diante de um presidente que segue demonstrando seu desprezo pela democracia, pela ciência e pela vida, é preciso que todos estejamos unidos desde já, de forma inequívoca, em defesa do Estado democrático de direito e da saúde dos brasileiros e brasileiras.
As eleições do Congresso são um ponto chave do que será o futuro do país, determinando se teremos um Legislativo independente ou disposto a levar adiante pautas da agenda anticivilizatória do governo federal. Também a atuação de cada parlamentar e de cada cidadão, individual e coletivamente, ajudará a determinar se em 2022 teremos um processo eleitoral e uma possível transição de poder em total acordo com a Constituição ou se assistiremos a mais um espetáculo lamentável de violência, voltado à intimidação ou mesmo a uma tentativa de autogolpe, como parece plantar desde já o presidente.
Páginas importantes da História de nosso país estão sendo escritas neste momento em que a democracia sofre ataques ao redor do mundo. Seremos agentes de nossas convicções democráticas ou vítimas do ódio, do descaso e da cumplicidade que apontam para tragédias cada vez maiores? Para que as graves ameaças da extrema-direita sejam contidas, é preciso que todos os que prezam pela democracia atuem de forma inequívoca, isolando aqueles que não escondem suas pretensões mais autoritárias e desumanas. O Direitos Já! Fórum pela Democracia reafirma o seu compromisso com a população brasileira e, mais do que nunca, conclama todas e todos a se somarem na luta intransigente em defesa dos valores expressos em nossa Constituição, em defesa da dignidade humana, em defesa da vida.