Nos últimos dias, além das gravíssimas notícias envolvendo o surto do COVID-19, o país foi surpreendido pelas declarações do vice-presidente da República e por uma ordem do dia do Ministério da Defesa, assinada pelo ministro Fernando Azevedo e Silva, em conjunto com os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, em comemoração aos 56 anos do golpe civil-militar de 1964.

A quem tem compromisso com a verdade e os fatos históricos, não é necessário lembrar o quão nefasto foram os anos que se sucederam sob o regime ditatorial. Vidas foram ceifadas, avós, pais e filhos foram privados do convívio com seus entes queridos, muitas vezes dados apenas como desaparecidos, quando, em verdade, haviam sido assassinados pelas forças do Estado ditatorial. São de triste memória as ações de tortura que, com métodos bárbaros, vitimaram pessoas de todas as idades, inclusive crianças.

Ao contrário do que foi propagado por décadas, agora sabe-se também que o “milagre econômico” não foi um “milagre”, já que o crescimento econômico beneficiou apenas a parcela mais rica da população.

É inaceitável que agentes oficiais do Estado brasileiro tentem reescrever a história, em mais uma demonstração de que há uma força revisionista, quando não negacionista, que coloca em risco a produção de conhecimento científico e a própria vida da população, conforme o país tem acompanhado com espanto e horror nas ações do Presidente da República, que se recusa a seguir protocolos básicos de saúde durante a pandemia. Em um momento que pede uma verdadeira união nacional de combate ao COVID-19, é injustificável que o golpe que deu início à ditadura e seus crimes seja celebrado, em profundo desrespeito às suas vítimas e à posição oficial do Estado brasileiro sobre a ditadura.

Ainda, é preciso que fique nítido que as Forças Armadas têm a importante função de defesa da soberania nacional e dos poderes constitucionais, fundamental inclusive no enfrentamento a esta pandemia, não cabendo a elas a função de poder moderador ou de tutela dos três poderes do Estado.

O Direitos Já! Fórum pela Democracia repudia veementemente as declarações do vice-presidente da República, a ordem do dia do Ministério da Defesa e quaisquer outras manifestações em comemoração aos 56 anos do golpe de 1964, reafirmando seu compromisso inarredável com a democracia, o único caminho que nos permitirá superar os imensos desafios atuais, mas também os futuros.